A sobrevivência se dará no norte

frioPosso dizer que estou cansado da vida. Não apenas dos entraves do cotidiano, desilusões, falta de dinheiro, pouco trabalho que resultam numa desolação mortal. Talvez tenha uma contribuição no meu estado de espírito. Mas não é fundamental.

Estou cansado de ser homem, de ser humano para ser preciso. Para não deixar a questão de gênero influenciar. Se fosse mulher não seria diferente. A humanidade não deu certo. Preferia ser cão, gato ou talvez um aedes aegypti. Este sim tá trabalhando forte para dar fim ao sonho do desenvolvimento a qualquer preço. Um mosquito pode praguejar toda uma população.

O cenário é catastrófico. Deixo para os otimistas o discurso das benesses do novo mundo. O novo já está velho. E, por culpa irresponsável dos Maias, o fim tão almejado se mostrou como mais uma ficção. Dois mil e doze podia ter sido um ano bom. Não foi.

Pois bem, mesmo cansado de tanto pensar qual poderia ser o fim da espécie humana só posso dizer que as minhas elocubrações me levam para múltiplos cenários. Todos, invariavelmente, se encerram com a destruição da espécie humana. Uma destruição que deixam sobreviventes soltos pelo mundo. Em busca de água e comida para explorar um tempinho mais desse sofrimento terreno.

Os cenários mais lógicos são aqueles apontados pelos cientistas. Por agora, apresento James Lovelock.

Criador do conceito gaia,Lovelock afirma que o aquecimento global é irreversível diz que até 2100, a população da terra encolherá dos atuais 6,6 bilhões de habitantes para cerca de 500 milhões, sendo que a maior parte dos sobreviventes habitará altas latitudes – canadá, islândia, escandinávia, bacia ártica. em suma, uma conclusão desconcertante: a raça humana está condenada.

E continua: trocar as lâmpadas de casa por aquelas que economizam energia não vai nos salvar. Diminuir a poluição dos gases responsáveis pelo efeito estufa não vai fazer muita diferença a esta altura, e boa parte do que é considerado desenvolvimento sustentável não vai segurar tantos anos de depradação, desrespeito e corrupção. Do ponto de vista do planeta só um radical retorno as bases vai dar condições de continuidade.

Na visão de Lovelock, significa que está na hora de começar a discutir a mudança do lugar onde vivemos e de onde tiramos nossos alimentos; de fazer planos para a migração de milhões de pessoas de regiões de baixa latitude; A sobrevivência se dará no norte.

Capítulo 1 do guia geral de sobrevivência: temos que aprender a lidar com climas frios, úmidos e neve.

Por um dia feliz

dysonO físico e matemático, Freeman Dyson, categoriza dois estilos de se fazer ciência que ele chama de napoleônico e tolstoiano.

O estilo napoleônico é representado por organizações rígidas e muito disciplinadas e se identifica com o mundo dos anos setenta; empresas do tipo da IBM que construiram computadores gigantes, os mainframes. São projetos que consomem muito investimento e que, muitas vezes se tornam grandes elefantes brancos. Nos dias de hoje, projetos napoleônicos são relacionados com as grandes corporações, instituições e todas as partes da sociedade baseadas nos conceitos modernos (aqui, vale considerar que os modernos são os propulsores da era industrial e daquilo que não mais funciona numa sociedade do século XXI. Descartes era moderno 😉 )

O estilo tolstoiano é da criatividade caótica e da liberdade, pode ser representado pelos projetos que deram origem ao computador pessoal, como o Macintosh. Mais recentemente, o impulso do movimento DIY (Do it yourself, faça você mesmo, Makers) que se baseia em pesquisas com resultados práticos, na cultura hacker, nos coletivos, na emergência de novos processos, na rede distribuída e, em outras maravilhas trazidas pela entrada do computador e das redes nas vidas dos seres humanos.

As conclusões de Freeman Dyson favorecem a ciência tolstoiana pois o dinheiro para se investir em ciência será cada vez mais espasmódico e instável, o estilo tolstoiano responde muito melhor em condições adversas.

Infelizmente, pelo que tenho visto, pela disfunção entre a intenção e o gesto, creio que há uma forte tendência entre nós humanos de se desenvolver projetos no estilo tolstoiano com uma disciplina e controles napoleônicos, mas esta combinação tende mais ao fracasso do que ao sucesso. É esperar resultados diferentes com as mesmas ações.

Pensar numa ciência livre é trazer à luz algumas ideias que não são tão facilmente aceitas no mundo como conhecemos, a saber: potência X poder, liberdade X controle, colaboração X  fanfarronices, copyleft X propriedade intelectual, democracia participativa X partidos políticos e, principalmente um cenário onde a picaretagem desapareça da face da terra. Todos estes debates estão abertos. Mas não creio que teremos tempo de esperar por um dia feliz.

Capítulo XX do guia geral de desenvolvimento: como fazer gambiarras (ainda sem link e sem texto)