Dupla apropriação

O Google é um espaço informacional para ser ocupado. Na verdade, o Google tem se apropriado dos espaços urbanos através da sua máquina de mapeamento do mundo. São satélites (no caso do googleearth) ou câmeras fotográficas ou 8eyes (no streetview) que capturam imagem 3D e moldam um ambiente onde nossas informações são disponibilizadas por uma plataforma.

Google Street View é um recurso do Google Earth que disponibiliza vistas panorâmicas de 360° na horizontal e 290° na vertical e permite que os usuários vejam partes de algumas regiões do mundo ao nível do solo. Quando foi lançado em 25 de maio de 2007, apenas 5 cidades americanas haviam sido incluídas. Desde então já se expandiu para milhares de localizações em alguns países como Estados Unidos, França, Austrália, Japão, Portugal e Brasil e muitos outros.

A vida acontece em rede. Esta é uma afirmação que revela uma Internet como espaço de ação que catapulta transformações, intervenções e produção de subjetividades. Pois, esse é um caminho para explorar.

A oposição real/virtual tornou-se um anacronismo do século 20. O virtual é tão real como o presencial. Diferente como espaço de ação, mas representa fielmente rastros das nossas vidas.

O uso da interface como espaço informacional de experimentação, em que a criação artística resulta numa ocupação das redes, ou seja, os meios digitais possibilitam que os recursos tecnológicos de criação, produção, transformação e circulação de conhecimento e cultura sejam acessíveis. E, principalmente, a distribuição desta produção nas redes.

No livro Googlerização de tudo de Siva Vaidhyanathan, traz uma passagem interessante do Cory Doctorow, um autor, blogueiro e ativista, que “disse que ele tem usado o Google Street View para descrever em detalhes uma cena em San Francisco quando escrevia o seu bem-sucedido romance Little Brother (…) Eu peguei o sinal Wi-Fi com o meu WiFinder do meu celular a uns três quarteirões do O’Farrell, pouco antes da Hyde Street, na frente do não tão honesto ‘Asian Massage Parlor’ com um neon vermelho piscando FECHADO na janela. O nome da rede era HarajukuFM, por isso, sabiamos que estavámos no ponto certo. (…) Doctorow tinha escrito grande parte do romance, enquanto vivia em Los Angeles (…) Eu acho que eu estava escrevendo em Heathrow aquele dia, ou possivelmente na Croácia. Eu conheço a rua O’Farrell muito bem, mas já fazia alguns anos. Eu dei um zoom para cima e para baixo da rua com o [Google Street View] por alguns segundos até que minha memória tivesse refrescada, em seguida, escrevi.”

A apropriação dos espaços informacionais se dá de diferentes maneiras. Podemos dizer que Doctorow interagiu com a rede no sentido de buscar informações residuais num ambiente 3D para transforma-las em ficção. Usou aquilo que precisava. Tal qual um retratista poderia buscar no Google Street view algumas informações para sua pintura.

De fato, o artista e designer gráfico Bill Guffey resolveu pegar um atalho para pintar quadros de seus locais favoritos ao redor do mundo. Ele usa o Google Street View para visitar os lugares e retratá-los em um quadro. “Street View realmente mudou tudo para mim, pois significa poder ir a todos aqueles lugares que eu amo, sentar e pintá-los como se estivesse realmente lá”.

A cultura digital possibilita o acesso aos meios de produção. Facilita as atividades das pessoas comuns que passaram a usar o computador em substituição às ferramentas e meios de produção que outrora eram inacessíveis. Com a utilização de softwares é possível criar e editar arquivos de texto, imagens, áudio e vídeos. Essas facilidades se ampliam quando passam a ser distribuídas em redes, fazendo com que as pessoas conectadas possam trocar arquivos, projetos e ideias com qualquer outra pessoa ou grupos em qualquer lugar do planeta. Esse conjunto de ferramentas cria impacto na forma que a sociedade produz. Tanto do ponto de vista da técnica, onde novas ferramentas digitais estão disponíveis, como no processo de redificação da sociedade na qual as pessoas tem cada vez mais acesso aos meios de produção e distribuição.

A artemídia, como qualquer arte fortemente determinada pela mediação técnica, coloca o artista diante do desafio permanente de, ao mesmo tempo em que se abre às formas de produzir do presente, contrapor-se também ao determinismo tecnológico, recusar o projeto industrial já embutido nas máquinas e aparelhos, evitando, assim, que sua obra resulte simplesmente num endosso dos objetivos da produtividade da sociedade tecnológica (MACHADO, 2007, p. 16).

Nesse contexto, a capacidade de agenciamento da artemídia depende de um
desvio da lógica industrial que ponha em questão a integralidade de suas máquinas semióticas, solapando a um só tempo suas funcionalidades objetivas e subjetivas. (Beiguelman, 2016)

No que concerne à criação artística vinculada a esses meios, a questão da visibilidade não é diferente. Do lado da produção, a tecnologia vem descontruindo a técnica. Por exemplo, a fotografia analógica era basicamente técnica. As lentes, o filme, o controle de luz e velocidade resultaram nos tons e nas sombras e, principalmente, na organização dos trabalhos de pré-produção. Este dado caracterizou a diferença entre amadores e profissionais. Nos tempos da tecnologia digital, este processo foi canalizado para a pós-produção. O Photoshop veio pra ficar. E, de certa forma, amplia e facilta o olhar do fotógrafo.

Esta desconstrução da técnica é um detalhe que aumenta vertiginosamente a quantidade de fotógrafos e artistas, cada vez mais circunscritos ao amadorismo, que não significa obrigatoriamente os não profissionais e sim, aqueles que escolheram e amam o que fazem. ‘Somos todos aqueles que ousadamente armazenam e guiam ideias para onde só a imaginação alcança.’

As imagens do Google Street View podem ser navegadas usando tanto o mouse quanto o teclado. Com esses dispositivos podemos ter acesso a vistas em diferentes tamanhos, a partir de qualquer direção e de diversos ângulos.

A proposta de produção e distribuição em rede demanda o processo de ocupação. Ou seja, a reutilização e remix da interface como suporte. Pesquisar o ambiente do Google aponta para a ressignificação do espaço virtualmente modelado. As imagens do streetview revelam países, cidades, ruas, lugares diminuem distâncias e nos convidam a viajar pelo espaço – tempo de nossas memórias afetivas.

Revisitar lugares, interferir neles, imprimir nossa marca sobre eles é um exercício libertador e poético.

Ocupar os espaços informacionais é ampliar este diálogo. Não é preciso pedir permissão para publicar. As imagens geradas pelo streetview são capturadas, remixadas com outras imagens, transformadas por softwares e são devolvidas como expressão da arte. O virtual se materializa. E se mistura e atualiza. Aí, os espaços informacionais tornam-se presenciais. Sem fronteiras definidas. A ocupação se faz permanente.

Em NY 2011, uma dos meus primeiros trabalhos de apropriação do Google Earth, fiz uma intervenção utilizando softwares livres como The Gimp e Inkscape para desviar o pressuposto pelo googleearth.  A imagem às margens do Rio Hudson deixa de ter uma função de um mapa ou uma vista do satélite.

ny_final

Em 2014, a obra hacking Ligia Pape, criada após uma visita presencial à Inhotim e disponibilizadas no Instagram e Facebook, onde a imagem de NY 2011 foi ressignificada na fachada da Galeria Ligia Pape.

ny_inhotim

A imagem criada através do googleearth como suporte foi migrada digitalmente para outro espaço. Este processo chamei de dupla apropriação.

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