Da utopia à sobrevivência

lixo_celular_text_v1.jpgDa utopia à sobrevivência num piscar de olhos. De repente, a promessa de um mundo hiperconectado, onde a sociedade civil organizada atuasse como um gatilho para o futuro ficou em baixa. Não foi a ideia que se perdeu. Do ponto de vista de um hacker do século passado não tivemos tempo, nem o compromisso necessário para transformar de vez o paradigma capitalista.

O desmonte é muito difícil e acompanhado das ações retrógradas de gente como a gente não conseguimos alcançar um mundo melhor. A multidão se desenvolveu como um paradoxo da sociedade contemporânea mas ainda não teve a potência de se organizar como uma opção. As tentativas foram muitas e efetivas. Tivemos sucesso. Mas apesar de toda criatividade embutida, de todas as ações diruptivas não foi possível seccionar o poder do ser humano. O poder fala mais alto e determina o estado da falta de graça.

Da utopia à sobrevivência transitamos pelo pessimismo. Pois é, deu merda! Não vamos ter tempo de acreditar que é possível transformar a humanidade. Isso só aconteceria se uma ação alienígena devastadora assombrasse os céus poluídos das grandes metrópoles.

Aquilo que é do homem, o bicho não come e, assim, continuamos na ladainha de não olhar para os lados e compreender os sinais do antropoceno. O que é isso? Frio, calor, frio, chuva, sol… tudo acontecendo em menos de 24 horas para o regozijo da humanidade. Mas ninguém se liga que a coisa tá preta. Que o futuro é a fuga do planeta. Mas será que você e sua família serão os contemplados com a viagem à Marte? Ou será que ficaremos por aqui junto aos destroços da civilização. A resposta você já sabe, logo, vamos aprender como sobreviver com dignidade. Não estou afins de caçar ratos e pombas.

Da utopia só nos restou a sobrevivência. E para sobreviver bem temos que voltar a pensar nos agentes transformadores. Na utopia de uma conexão livre, da inteligência coletiva, na colaboração entre as pessoas e, na generosidade de um com os outros. E, a vontade de manter as raízes à terra e reconstruir a partir da derrocada do sistema. Os escombros são os novos recursos. A reciclagem é antagônica à escassez. Esse é o caminho do retorno daqueles que não foram.

Por um novo modelo de negócio

379659_10151237646388061_2062466789_nEu frequento alguns grupos de negócios. Todos estão buscando algum modelo diferente para dar conta dos mercados contemporâneos. É muito blá, blá, blá. E pouca realidade.

Poucos entendem de fato que a maioria das ideias são oriundas do movimento do software livre. Um modelo que tem a liberdade da propriedade intelectual como um diferencial. Todos com acesso ao código fonte. E, assim deixa frouxa a possibilidade de uma gestão autoritária em relação ao produto final. Ou seja, o produto final pode ser customizado. E ao invés deste poder de customização ficar na mãos das empresas, ele flutua livremente pela horda de programadores espalhados mundo afora. Se você não souber programar pode contratar o programador mais próximo ou mais confiável ou o mais barato. A escolha é sua. Isso pode acontecer em outras áreas do conhecimento. Se precisar de alguém para cuidar das suas mídias eletrônicas pode escolher entre inúmeras indicações encontradas nas redes sociais. Não é necessário buscar uma empresa ou uma agência de propaganda. A solução está distribuída em rede.

Assim, encontramos tentativas de empresas que procuram ser livres. Onde a relação entre os parceiros se dá na colaboração cotidiana. Os resultados podem ser compartilhados caso a caso. É lógico que quando envolve remuneração a chapa esquenta. Muitas vezes colaboração pressupõe trabalhar de graça em busca de uma luz no final. Assim, as diversas tentativas de se criar uma empresa que funcione num modelo de liberdade acabam em frustração. Eu já tentei várias vezes e, em nenhuma delas, tive sucesso no longo prazo. No entanto, os processos de curto prazo funcionam muito bem. É o que chamamos de zona de colaboração. Os coletivos que atuam juntos num projeto e são desmontados ao finalizar o processo apresentam mais chances de conseguir resultados do que aqueles que querem se perpetuar continuamente. Em resumo, as redes são sempre impermanentes.

Parceria são bem-vindas. Mas temos que entender como funciona. Pois, um parceiro de hoje não necessariamente vai ser teu parceiro de amanhã. Graças às tecnologias disruptivas as pessoas podem ser múltiplas e estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Podemos ter ‘infinitos’ parceiros para alavancar nossas ideias. Mas os compromissos só aparecem quando temos um projeto comum.

A impermanência é o modus operandos da liberdade. Um modelo de negócio contemporâneo pressupõe uma inspiração hacker. A maioria das pessoas confunde o hacker como o malfeitor das redes. Mas é o contrário. A ética hacker (em oposição a ética protestante) tem sido a inspiração dos novos tempos. As novidades como cultura maker, diy, grana virtual foram desenvolvidas a partir deste conceito. Um modo de produção colaborativo desponta como solução para o futuro. Se quiser ser livre é onde deverá concentrar seus esforços. Se preferir ser rico siga os passos do Netflix. Mas não vai durar para sempre…

Por um pedacinho de pão

fome2É bem desolador ver em que lama estamos todos atolados. Pois só piora a cada dia. A crise que outrora era uma questão política e uma crítica voraz à dita corrupção se transformou no último baluarte dos conservadores de plantão. Agora não somos apenas os reis da corrupção, da falta de transparência e dos joguetes políticos. O país tá na pegada misógina, homofóbica, racista e contra os direitos das mulheres. Pautas importantes como o aborto, as drogas, educação, saúde foram travadas e sem perspectiva de ação. Estamos caminhando em marcha ré. A bancada evangélica toma o poder com ideias mais do que feudais. Um desespero.

Estou a cada dia mais apocalíptico e mais fervoroso. Pois além de vislumbrar um fim desta civilização, seja pelo clima, pela continuidade na queima do petróleo e no investimento em projetos estapafúrdios como o pré-sal, pelo espalhamento do Aedes aegypti que carrega uma quantidade de vírus, pelas guerras idiotas, terrorismo sem fundamento ou por causas astronômicas (que pelo visto são as menos prováveis pois independe da ajuda do homem para acontecer). São inúmeras as chances de deixarmos um legado negativo para as novas gerações. Sinto pelos nossos filhos e netos. Sinto pela raça humana. Mas a real é que estamos fudidos por todos os lados.

Mas acho que o fim não é o grande problema. Fim é fim, para todos. O complicado é o sentimento de vazio. A dimensão contínua do pois é, pra que? Pra que vou acordar, trabalhar, assistir ao pôr do sol. Pra que? Com a desilusão emerge a angústia, a depressão. Precisamos de esperança para poder fazer coisas. Pois viver do tanto faz é a grande merda.

Bem, para sair dessa ressaca forçada precisamos de ação. Não adianta discutirmos uma política do atraso. Uma política que vai nos levar para o século passado. Precisamos revolucionar as estruturas de poder para dar conta dos desafios que a possibilidade do fim do mundo nos apresenta. Como enfrentar juntos a crise climática? Como ampliar o controle das epidemias? Como dirimir as crises geopolíticas? Ou em pouco tempo vamos matar uns aos outros por um pedacinho de pão…