Elogios desnecessários

4483457-highFaz um tempo resolvi mudar alguns padrões de vida. A simplicidade passou a ser mais relevante do que o consumismo exacerbado. Talvez tenha me sentido forçado a modificar meus hábitos. Mas, o consumo nunca fez minha cabeça. Gosto de coisas boas, o que não significa que preciso ter tudo o que vejo pela frente. A posse é a inimiga da perfeição. Sou um anarquista utópico e, imagino um mundo onde a propriedade seja um mero detalhe pra sociedade.

Ando de bike como meio de transporte. É lógico que uso o transporte público em geral. Adoro combinar a bike com o metro para ir bem mais longe. Nessas peripécias do dia a dia, ando por ciclovias, ruas, subo ladeiras e o vento bate na minha cara quando corro loucamente nas decidas. Uma emoção sem igual.

Eventualmente, recebo os elogios de motoristas. Sou chamado de amigo do Haddad, vagabundo, ptralha e muita coisa mais. As vezes, sou até ameaçado ou simplesmente desrespeitado no meu direito de ciclista. Nem entendo o porquê. Nem conheço o figura. Mas acho que a ideia da ciclovia é uma visão de futuro. Aliás, as ciclovias estão cada vez mais lotadas. Milhares de pessoas fazem o mesmo. Abandonaram os produtores de CO em casa e passaram a pedalar. Todos amigos do Haddad… que bobagem 😉

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O aprendizado contemporâneo

anatomy-lesson-dr-nicolaes-tulpVivemos os tempos das relações fluídas. Na verdade, prefiro o termo relações gasosas. A ideia do liquido necessitar de um recipiente para contê-lo não me agrada como metáfora da contemporaneidade. O gasoso se expande. E, se estabelece numa interface do intermezzo. Entre mim e você existe uma quantidade de moléculas que caracterizam um ambiente no qual estamos juntos.

Mas o que tem a ver toda essa explicação filosófica com o aprendizado? Pois, tem tudo a ver. Em primeiro lugar, a ideia de conhecimento foi teletransportada para a rede. Uma ruptura com os containers do conhecimento de outrora, onde a dicotomia do conhecimento e poder se apresentavam como o lado da mesma moeda. A entrada das redes sociais fez a transposição do conhecimento para a rede. E, nesta lógica, o professor já não é mais o grande mestre. A relação se torna quase que igualitária. O aluno está sob o controle do seu próprio aprendizado.

O professor torna-se então um facilitador de experiências. Creio que a proatividade das novas gerações em termos de busca por conhecimentos na rede e colaboração tem nos mostrado novos caminhos para a educação. Aquele que quer aprender tem sob seu domínio todas as informações necessárias nas redes. são inúmeros tutoriais, cursos, textos, livros e tantas outras mídias que só não aprende quem não quiser.

No entanto, toda essa quantidade de informação está jogada na rede. Não é fácil discernir o bom conteúdo daquele que é criado em condições suspeitas. Para se entender nesse mundo digital é necessário ser um hacker, um artesão da informação que tem a capacidade de checar os caminhos tortuosos da rede. Um hacker não precisa de facilitação. Ele as cria durante seu percurso cibernético. Sabe escovar os bits para recriar, remixar e produzir subjetividades com os recursos digitais graciosamente liberados.

Esse não é o caso das pessoas comuns. A Netflix entendeu isso antes de todos nós. Pois, apesar das músicas e filmes estarem praticamente livres na rede, eles criaram um aplicativo para facilitar (e legalizar) o acesso aos conteúdos. As pessoas preferem pagar por uma ajuda extra do que sair a procura dos novos territórios do conhecimento. O mapeamento é importante como um agente facilitador.

A prática do aprendizado contemporâneo está em ampliar os caminhos, refinar a pesquisa e trabalhar a experiência de construção de um conhecimento que se solidifica a partir do desenvolvimento colaborativo. Não se aprende sozinho. É função do ser-em-rede se retro-alimentar das informações disponibilizadas para construir uma nova humanidade. Sempre juntos!

Efeito Napster

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Qualquer ideia que se coloca neste momento passa pela situação calamitosa que o país assiste. Uma revolução midiática se faz presente. Não aquela revolução que havíamos planejado anos atrás. Uma revolução sem perdedores. Aquela onde a humanidade pudesse florescer como um campo na primavera. Talvez fosse utopia pensar numa transformação tão silenciosa que num piscar de olhos modificaria o estado de ânimo dos seres humanos e a colaboração e generosidade passariam a comandar as ações. Bullshit!

Mas tenho uma tese, uma ideia que não sai da minha cabeça. Estamos vivendo um momento onde o efeito napster prevalece.

Deixe-me explicar: chamo de efeito napster as rupturas causadas pela entrada da internet na equação da sociedade. O Napster apareceu no final dos anos 90. Sean Park teve uma batalha animal com as gravadoras. Nos tribunais, ele perdeu. Mas o impacto do Napster na indústria da música nunca mais se esqueceu.

O efeito napster é sobre disponibilização de arquivos digitais vs. as instituições caretas. A indústria da música tinha um modelo de negócio que foi desbancado pela distribuição das pessoas em redes. Assim aconteceu também em hollywood, na indústria de software (na verdade, foi o software livre que deu gás para todas as outras rupturas, inclusive o napster), nas enciclopédias, nos serviços. O mundo dos negócios não é mais como aquele que conhecemos. Tudo mudou.

Na política não é diferente. Como fazer politicagens grosseiras num ambiente onde a transparência e o fluxo da informação acontecem na velocidade da luz. Não existe mais espaço para segredo. A wikileaks é exemplo. E, Assange está em asilo permanente para evitar os dentes pontiagudos dos conservadores. O sistema rompeu. Não haverá mais tempo bom para aqueles que queiram escamotear e se esconder por trás das mentiras do dia-a-dia. A grande imprensa ruiu. E, agora é a hora das pessoas comuns.

Apenas 4 não dão conta do serviço

os cavaleiros do apocalipse por gustave doreNada faz sentido. Este é o meu sentimento no primeiro quarto do século 21. Minhas previsões como um futurologista de plantão sempre apontaram para o quase extermínio da raça humana pela própria ação devastadadora. Criamos o céu e a terra como metáfora de um paraiso utópico. Mas tratamos os nossos recursos como se não houvesse amanhã. O resultado é a escassez.

O mundo não está dando conta de si mesmo. A velocidade da informação ficou surpreendente, os mercados se tornaram rápidos e sensíveis ao estresse do cotidiano, as instituições faliram e não são mais o último baluarte da civilização. Está tudo muito estranho. Só faltam os zumbis para estabelecer o caos.

Como diz Drummond: Os cavaleiros do Apocalipse, apenas quatro, não dão conta do serviço. Estamos dando uma força extra pra agilizar o fim do mundo. E, percebemos que os 4 cavaleiros estão sendo ajudados por uma onda fascista em toda parte. O desrespeito ao ser humano por parte daqueles que detém o poder é algo que a história não vai contar, simplesmente porque não vai ter história. Preconizamos o fim. The end!

O fascismo não é de direita ou de esquerda. Fascismo é sobre o poder a qualquer preço, sem discriminação das ilegalidades sobre o estado de direito. A democracia nunca esteve tão prejudicada. E, os ditos cidadãos entregues a fome dos zumbis. Quem acredita em teorias conspiratórias pode já fazer a festa.

Quando será esse tal fim do mundo? Pois, meus amigos, o fim já começou. Por enquanto a coisa tá lenta, mas a aceleração é contínua. É só aguardar o desenrolar dos fatos. Nunca Messias foi tão esperado 😉

Em busca do futuro perdido

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O futuro já chegou. Um pouco diferente daquele futuro que havíamos imaginado. Um futuro onde as máquinas ganhariam uma inteligência suprema e se revoltariam contra os criadores. Pode ser que essa profecia ainda se torne realidade. Mas não houve um investimento na inteligência artificial autônoma como modelo de sistema de controle.

Chegamos bem perto de um sistema controlado pela inteligência coletiva. Um panóptico que se desvela a cada segundo por trás das câmeras de segurança e devices de observação. O controle se dá pela sensação e realidade que estamos em todos os lugares permanentemente.

O futuro chegou para ser combatido. As tecnologias ampliaram o sistema de liberdade. Dando voz às pessoas comuns. Que cada vez mais podem esbravejar para denunciar as falcatruas do presente. As nossas liberdades foram catapultadas para uma capacidade de se organizar muito eficiente. E isso, graças as novas políticas de multidão. Mostrando que as possibilidades de uma democracia participativa nunca estiveram tão na mão.

Mas isso não é muito bom para quem precisa do poder para viver. As novas tecnologias ampliaram a noção de transparência. As leis que promoviam a publicação de todas as transações institucionalizadas deixaram de ser apenas uma máscara, uma demanda utópica da sociedade civil organizada e se tornou possível e acessível. Não é a toa que hoje sabemos detalhes das operações ilícitas da política dos partidos. É só seguir a informação e a grana.

Eu creio que os políticos são conservadores por natureza. Para existir tal classe política há de existir também a instituição. E, essa está sofrendo com as rupturas contemporâneas como tantas outras indústrias e instituições. É possível fazer política sem políticos profissionais. E já estamos assistindo de camarote ações políticas que tem no comum sua bandeira de aglutinação. Um terrorismo poético como sugere Hakim Bey. A ocupação das escolas paulistas é prova de conceito.

Mas o que querem esses políticos profissionais? Não confio em nenhuma pessoa que escolheu a política como carreira. Essa desconfiança é geral. Existe sempre um burburinho ensurdecedor para esconder embaixo do tapete uma rede de desvios. Uma instituição que se ataca e se defende ao mesmo tempo. E não é um jogo dos bons contra os maus. É um jogo que se faz na surdina e que não tem como objetivo abrir para as massas. É um toma lá, dá cá que enrijece qualquer tentativa de um desenvolvimento mais humano. Uma confusão generalizada que só para recobrir os passos. As delações são piadas prontas nesse fuzuê de canalhas.

No entanto, ainda temos acesso às informações. Um acesso quase que irrestrito se souber destrinchar os arquivos, juntar dados e fazer da transparência um big data para maior participação. Se queremos um mundo melhor teremos que nos envolver. Liberdade não é dada, é uma conquista.

O poder dos mercados está cada vez mais nas mãos das pessoas comuns.

Um ofício

IMG_7079Estava olhando o instagram. Tenho muitos amigos que são excelentes fotográfos. Muitos deles estão na rua para sacar fotos. Sempre me espanto com a criatividade de cada um deles; dou um super curtir. Com orgulho de poder participar desse momento criativo. A fotografia se transformou com a distribuição pela internet. São mais talentos, mais ideias, mais facilidades de trabalhar com a tecnologia ótica e de impressão.

Nesse sentido, a técnica da fotografia foi otimizada. O conhecimento técnico foi incluído na tecnologia que usamos. E, cada vez mais transparente para o fotógrafo. Tirar fotos é mais uma questão do olhar. A impressão da captura é mediada por uma camada de softwares que ajusta brilho, contraste, sombras e luzes. A materialização da foto se dá num monitor que logo é distribuído numa publicação online.

O suporte é a tela do seu dispositivo. A arte digital acontece num ambiente rizomático, efêmero, caótico, que se conecta por uma rede de afetos. Acontece num ambiente de multidão. Onde cada um tem a liberdade de publicar na rede aquilo que ele considerar importante. Fotografar não é exclusividade dos fotográfos. Fotográfo é como qualquer outro. Assim como ser artista, dentista, agrônomo, psicólogo… todos em momentos de rupturas contemporâneas.

Um hacker ocioso

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Estou empolgado em escrever. Fazia alguns anos que essa vontade não vinha à tona. Tento me expressar de múltiplas formas. A arte tem sido a melhor maneira de expor meu pensamento. Tratar de temas como remix, produção de subjetividades, agenciamento, auteridade, colaboração e direitos autorais é parte do que chamamos de contemporaneidade. A entrada da Internet e, por consequência, a emergência das redes sociais tem transformado inexoravelmente a sociedade que vivemos.

Por um tempo longo, escrever me deu muita preguiça. Talvez seja pela própria dinâmica das redes. Comecei faz muito tempo. Quando escrever era metáfora de participação e conversas. Em tempos de FaceBook as conversas aparecem de outras maneiras. Não é necesário muita elucubração. Eu me sinto um hacker ocioso.

Um ócio provocado pelo crescimento de agenciamentos coletivos que me permite descansar em berço explêndido. Não preciso ser trovador da mais louca utopia. As pessoas compartilham essas ideias como memes auto-viralizadas. Uma multidão que faz do paradoxo um outro paradigma. Liberdade, reputação, colaboração, compartilhamento, desterritorialização e conectividade são palavras que ganharam nossos corações e mentes. Não mais é preciso explicar. Apenas a prática vai te levar a enxergar as benesses deste novo mundo.

Lidar com o desconhecido, com a aproximação conversacional, com a liberdade de co-criação, com a autonomia, com a anarquia de se viver em rede. Falar dessa prática é muito complexo. Uma vez que a prática esbarra na mentira nossa de cada dia. É por isso que parei de falar. Resolvi praticar.

De alguma forma, essa prática me levou a entender esse momento de uma forma heterodoxa. Não tenho ficado empolgado de como as pessoas estão se organizando em rede. Pois, isso nos remete a entender como as empresas, os políticos e esse pessoal sem caráter tem se valido das interações informativas para se dar bem. Uma constante de intenções que se confundem nos gestos.

Prefiro tentar entender essa revolução sob o ponto de vista de como as pessoas conseguem se desorganizar. Um ponto de vista caótico mas que tem muito mais a ver com as lógica dos compartilhamentos. Pensar rizoma, autonomia e outros adjetivos relacionados a potencialização do ser humano no estado de multidão pode desmontar as peripécias daqueles que querem estruturar a sociedade sob algum ponto de vista que seja diferente da auto organização.

Uma aposta na cauda longa. É só deixar a transparência desvelar as espessas camadas do capitalismo. Digo isso porque a distribuição tende a roer as velhas instituições. Na prática siga as tentativas de hollywood de criminalizar quem baixa conteúdo desautorizado pela falida lei do copyright. Felizmente, na rede somos todos criminosos.

Essa prática da rede já foi compartilhada. A luta para manter essa conquista esta na ponta da língua da garotada. Para quem vive a dinâmica do acerto e erro entender as facaltruas das instituições que tendem a querer impor um conteúdo formatado. O compartilhamento pode ser entendido como uma estratégia de contra-poder. Dizemos que estar em rede não há mais necessidade de operar a mudança social, ela se faz permanente.

A sociedade sempre funcionou em rede. Aliás, sociedade e rede são conceitos indissociáveis. Os seres humanos vêm se organizando em redes colaborativas desde o começo dos tempos. Há muito que tal tipo de organização permite que sejamos capazes de transformar o mundo ao nosso redor, criando conhecimento e cultura de maneira coletiva. Não há sociedade, se não houver redes: de amigos, famílias, primos e primas. Conectados por um algum fator que combina os anseios, interesses e desejos das pessoas. Redes não são novidades.

A era industrial, sob o domínio da comunicação de massas, deixou a rede escondida. Em segundo plano. Mas, a internet tem nos levado a reviver a ideia. O sistema torna-se mais abrangente. As redes de amigos cresceram. Hoje em dia, com o advento e popularização da Internet, novas redes colaborativas, voltadas para a produção criativa, têm surgido com incrível velocidade, criando bens coletivos de valor inestimável.

A rede dos hackers, um dos exemplos mais evidentes, produz, todos os dias, inovações técnológicas que prometem revolucionar a economia dominante do mercado de software. São os chamados softwares livres, que podem ser instalados gratuitamente no seu computador, permitindo que você realize uma gama enorme de atividades, desde conectar a sua câmera digital até editar e mixar uma música. Mas o mais importante é que estes softwares são bens criativos compartilhados nessas redes, que podem ser estudados e melhorados por todos.

Pretendemos discutir o surgimento das novas redes, o papel da internet e da tecnologia digital como catalisadores de multiplicação, e os impactos sociais, culturais e econômicos deste novo meio de produção criativa. Poder e saber têm significados antagônicos. Entretanto, a sutileza do destino aproximou conceitos tão dispares. Precisamos contextualizar essa dicotomia e pensar no fato de que ainda não começamos a pensar. Pois a equação poder e saber está desbalanceada numa entropia negativa. O saber só existe quando está livre para voar. O conhecimento livre pressupõe o desatrelamento do poder.

A rede indica um futuro libertador. A web só faz sentido quando um se preocupa com o outro. Numa circulação generalizada e libertadora de fluxos de informações e das ondas econômicas.

A web é um mundo que nós criamos para todos nós. Só pode ser compreendido dentro de uma teia criativa que inclua os pensamentos que fundamentam a nossa cultura, com o espírito humano persistindo em todos os nós.

Rede atemporal e a criatividade

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Tenho trabalhado com esse tema desde 1998, numa vertente hacker que deu sentido as teorias de redes preconizadas nos meus livros marketing hackerlinkania e zonas de colaboração.

A gambiarra aparece como a arte de fazer com as ferramentas que se tem à mão. Isso faz uma diferença pois a inovação está em usar o não usual para resolver problemas do cotidiano.

A rua encontra os próprio sentido para as coisas* e, dessa maneira, a apropriação das tecnologias e as possibilidades de desvio do uso original aproxima o ideal hacker, ou seja romper com o sistema imposto, da criatividade e inovação.

A prática da gambiarra não está em aprender a fazer brinquedinhos techies ou simplesmente na utilização de material heterodoxo. A questão da gambiarra é mais profunda. Cabe uma análise da contemporaneidade, da vida em rede, da virtualização dos espaços e, principalmente, na possibilidade de produção de subjetividades como consequência do zeitgeist (espirito do tempo). Gambiarra é processo de apropriação.

A ideia  está em entender que gambiarra não é fazer algo mal feito. É estabelecer uma nova relação dos objetos técnicos (desconfigurando a técnica), estabelecendo novas aventuras tecnológicas (que diferente da técnica se torna quase transparente para o ‘final user’).

Nesse sentido, a gambiarra abre as portas para um conceito que tem sido muito utilizado no FabLabs, o faça vc mesmo ou DIY. No entanto, o faça vc mesmo se expande pelo uso da rede colaborativa atemporal, ou seja, tutoriais, youtube, debates e tudo que tem acontecido nas redes ampliam as possibilidades de se utilizar experiências de outras pessoas.

Cabe salientar que cada vez mais o contemporâneo nos leva a reaprender a fazer ‘coisas’. Perdemos esta habilidade na era industrial. Mas, como civilização estamos quase que nos obrigando a retomar estes conhecimentos para a nossa própria sobrevivência.

 

referência: A rua encontra os próprio sentido para as coisas* William Gibson

A sobrevivência se dará no norte

frioPosso dizer que estou cansado da vida. Não apenas dos entraves do cotidiano, desilusões, falta de dinheiro, pouco trabalho que resultam numa desolação mortal. Talvez tenha uma contribuição no meu estado de espírito. Mas não é fundamental.

Estou cansado de ser homem, de ser humano para ser preciso. Para não deixar a questão de gênero influenciar. Se fosse mulher não seria diferente. A humanidade não deu certo. Preferia ser cão, gato ou talvez um aedes aegypti. Este sim tá trabalhando forte para dar fim ao sonho do desenvolvimento a qualquer preço. Um mosquito pode praguejar toda uma população.

O cenário é catastrófico. Deixo para os otimistas o discurso das benesses do novo mundo. O novo já está velho. E, por culpa irresponsável dos Maias, o fim tão almejado se mostrou como mais uma ficção. Dois mil e doze podia ter sido um ano bom. Não foi.

Pois bem, mesmo cansado de tanto pensar qual poderia ser o fim da espécie humana só posso dizer que as minhas elocubrações me levam para múltiplos cenários. Todos, invariavelmente, se encerram com a destruição da espécie humana. Uma destruição que deixam sobreviventes soltos pelo mundo. Em busca de água e comida para explorar um tempinho mais desse sofrimento terreno.

Os cenários mais lógicos são aqueles apontados pelos cientistas. Por agora, apresento James Lovelock.

Criador do conceito gaia,Lovelock afirma que o aquecimento global é irreversível diz que até 2100, a população da terra encolherá dos atuais 6,6 bilhões de habitantes para cerca de 500 milhões, sendo que a maior parte dos sobreviventes habitará altas latitudes – canadá, islândia, escandinávia, bacia ártica. em suma, uma conclusão desconcertante: a raça humana está condenada.

E continua: trocar as lâmpadas de casa por aquelas que economizam energia não vai nos salvar. Diminuir a poluição dos gases responsáveis pelo efeito estufa não vai fazer muita diferença a esta altura, e boa parte do que é considerado desenvolvimento sustentável não vai segurar tantos anos de depradação, desrespeito e corrupção. Do ponto de vista do planeta só um radical retorno as bases vai dar condições de continuidade.

Na visão de Lovelock, significa que está na hora de começar a discutir a mudança do lugar onde vivemos e de onde tiramos nossos alimentos; de fazer planos para a migração de milhões de pessoas de regiões de baixa latitude; A sobrevivência se dará no norte.

Capítulo 1 do guia geral de sobrevivência: temos que aprender a lidar com climas frios, úmidos e neve.

Por um dia feliz

dysonO físico e matemático, Freeman Dyson, categoriza dois estilos de se fazer ciência que ele chama de napoleônico e tolstoiano.

O estilo napoleônico é representado por organizações rígidas e muito disciplinadas e se identifica com o mundo dos anos setenta; empresas do tipo da IBM que construiram computadores gigantes, os mainframes. São projetos que consomem muito investimento e que, muitas vezes se tornam grandes elefantes brancos. Nos dias de hoje, projetos napoleônicos são relacionados com as grandes corporações, instituições e todas as partes da sociedade baseadas nos conceitos modernos (aqui, vale considerar que os modernos são os propulsores da era industrial e daquilo que não mais funciona numa sociedade do século XXI. Descartes era moderno 😉 )

O estilo tolstoiano é da criatividade caótica e da liberdade, pode ser representado pelos projetos que deram origem ao computador pessoal, como o Macintosh. Mais recentemente, o impulso do movimento DIY (Do it yourself, faça você mesmo, Makers) que se baseia em pesquisas com resultados práticos, na cultura hacker, nos coletivos, na emergência de novos processos, na rede distribuída e, em outras maravilhas trazidas pela entrada do computador e das redes nas vidas dos seres humanos.

As conclusões de Freeman Dyson favorecem a ciência tolstoiana pois o dinheiro para se investir em ciência será cada vez mais espasmódico e instável, o estilo tolstoiano responde muito melhor em condições adversas.

Infelizmente, pelo que tenho visto, pela disfunção entre a intenção e o gesto, creio que há uma forte tendência entre nós humanos de se desenvolver projetos no estilo tolstoiano com uma disciplina e controles napoleônicos, mas esta combinação tende mais ao fracasso do que ao sucesso. É esperar resultados diferentes com as mesmas ações.

Pensar numa ciência livre é trazer à luz algumas ideias que não são tão facilmente aceitas no mundo como conhecemos, a saber: potência X poder, liberdade X controle, colaboração X  fanfarronices, copyleft X propriedade intelectual, democracia participativa X partidos políticos e, principalmente um cenário onde a picaretagem desapareça da face da terra. Todos estes debates estão abertos. Mas não creio que teremos tempo de esperar por um dia feliz.

Capítulo XX do guia geral de desenvolvimento: como fazer gambiarras (ainda sem link e sem texto)