MadMax, o espirito do nosso tempo

mad-max-mel-gibsonEu tinha um amigo que dizia que na estrutura de governo, em quaisquer das instâncias, era um deserto. No sentido da escassez de recursos humanos que habitam a maior zona do planeta brasil. Eu sempre concordei com essa afirmação. A ideia de deserto me ampliou os argumentos que estamos vivendo o MadMax, o espirito do nosso tempo.

Não vejo nenhuma solução política para uma transformação social. Quando comecei a escrever sobre o impacto da Internet na sociedade acreditava que as relações em rede podiam catapultar a humanidade para uma fase hacker. Ledo engano. A Internet cresceu, as pessoas ganharam voz e se venderam ao capitalismo digital. Resta pouca sombra da revolução digital que destruiu a burguesia da indústria de softwares, da indústria fonográfica e sei lá quantos mercados que foram detonados ao som da banda larga. E nós ficamos apenas com a sequela.

Como diz uma outra amiga… entre os pessimistas sou até que otimista. Vejo ainda com bons olhos o crescimento exponencial de coletivos de ação: mulheres que se organizam para reinvidicar os direitos, os ciclistas que querem mais ruas livres para pedalar ou até aqueles menos engajados que estão mais afins de fazer arte, música e deixar a marca entre gifs e pixels.

Acredito que as possibilidades se expandem em busca de uma nova civilização.
Mas também sei que vai ser muito difícil desmontar as instituições que se consolidaram durante a era industrial. O deserto tende a se preservar.

Bem, os recursos estão se esvaindo. Falta água, luz e honestidade (em todos os sentidos) para lidar com tudo isso.

A arte em rede

rede de cabosSou artista. Mas será que este substantivo define alguma coisa? Talvez alguns adjetivos possam clarear esta afirmação. Sou artista do que?

Esta é uma pergunta que demoro para responder. Porque, em primeiro lugar, preciso me localizar. Tenho uma tendência para artes visuais. Embora, meu background acadêmico e técnico não me ajudam muito na definição. Logo, prefiro não me identificar desta maneira. Posso ser pintor, pesquisador ou pirata. Assim, um artista pirata. Uhmm, é pouco tangível.

Minha vida se dá em rede. Desde 1998 assumi a Internet como espaço de ação. É aqui que tenho feito minhas melhores (e piores) reflexões. É aqui que tenho proposto transformações, intervenções e desenvolvido ideias, imagens e experimentos. E, de certa forma tenho desenvolvido uma afirmação de Toni Negri que todo trabalho imaterial é performance. HD é um artista em performance. Pois, esse é um caminho para explorar.

Esta performance se dá no cotidiano. Nas postagens, nos compartilhamentos, nas colaborações. O dia a dia é um potencializador de subjetividades. Creio que este ponto também me é caro. Esta produção aparece na minha trajetória.

Mas creio que não só de performance vive o homem. Produzir subjetividades é um desvelamento da contemporaneidade. Creio que isto não acontece apenas comigo. Vejo muita gente fazendo coisas muito interessantes online. A arte tem migrado para outras linguagens. Linguagens tecnológicas e ricas em interatividades se mostram cada vez mais viáveis no universo particular das redes.

Estas linguagens se fundem digitalmente. A imensidão de possibilidades acontecem porque mais pessoas participam da rede. Mais pessoas trazem para o debate humano as suas novas conquistas. E, compartilham e são compartilhadas. Tornando a rede cada vez mais rica em inteligência coletiva.

Eu faço parte desta rede. Aqui tenho desenvolvido todo meu background de artista, nas trocas da metareciclagem, do lixo eletrônico, da relação íntima com a cultura digital e mais importante com a colaboração visível e invisível de milhares de pessoas. As relações acontecem na generosidade de um like, no apoio aos projetos ou como cada um sentir e desejar.

Bem, respondendo a questão… sou um artista das redes 😉

foto: rede de cabos de glauco paiva

As transformações em Escher.

tumblr_nn2kb7iayd1r704g9o1_500Faz algum tempo que ganhei da Cacau Freire um livro de M.C. Escher. Visions of Simmetry, de Doris Schattschneider. É um livro lindo.

E não é apenas lindo. É instigante e inspirador. A partir desse livro comecei a pensar em texturas. Embora, o desenho do Escher seja desenvolvido a partir de um pensamento matemático complexo, tratei de estabelecer alguns novos parãmetros para explorar a forma. O processo que escolhi foi individualizar partes das imagens e multiplica-las como se fosse um motivo. Consegui fazer isso usando um software livre, the gimp e um plugin, texturizer. O resultado ficou bem interessante. Alguns detalhes:

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A partir de uma parte do quadro – Condor – recortei a imagem motivo e multipliquei. O resultado foi bem gratificante.

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A partir de um quadro – Oval – fiz o mesmo processo anterior. Talvez o resultado não seja tão escheriano, mas tá valendo 😉

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Aqui os triangulos foram multiplicados para formar essa textura.

Contemporaneidade

11A contemporaneidade se inscreve no presente marcando-o sobretudo como arcaico, e só quem percebe no mais moderno e recente os indícios e as marcas do arcaico pode ser seu contemporâneo. Arcaico significa: próximo do “arché”, ou seja, da origem. Mas a origem não está situada só em um passado cronológico: é contemporâneo ao devir histórico e não cessa de funcionar nele, como o embrião continua atuando nos tecidos do organismo maduro, e o bebê, na vida psíquica do adulto. A distância e, ao mesmo tempo, a proximidade que definem a contemporaneidade têm seu fundamento nessa proximidade com a origem, que em nenhum ponto bate com tanta força como no presente. Quem viu pela primeira vez, chegando pelo mar, os arranha-céus de Nova Iorque, rapidamente percebe esta fácies arcaica do presente, esta proximidade com as ruínas cujas imagens atemporais do 11 de setembro tornaram evidentes a todos.

Giorgio Agambem

nota do hd: a destruição das torres gêmeas é a grande obra de arte do século 21

Las piernas y los 50 reales

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No feriado saí com minha querida amiga Mercedes para uma sessão de fotos pelas ruas de São Paulo. Mercedes no seu tempo de Montevideu foi uma modelo de pernas. Daquelas que cruzam suas perninhas compridas e finas e deixam as mulheres e os homens com vontade de comprar os sapatos oferecidos numa propaganda qualquer.

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Eu queria capturar apenas relances das perninhas que se libertam a cada passo. E nada mais.

Eu, que não sou fotográfo, fiz a minha parte ‘um eterno senta e levanta’. Busquei o melhor ângulo. O melhor recorte e etc…. as posições naturais para os fotográfos habituais.

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Logo, fui traído pela falta de condição física e pelo bolso. Este cuspiu uma nota de R$ 50 para viver noutras paragens. Deseseperei 😉

Mas como a vida sempre nos traz surpresas, dei uma chance ao otimismo. Ao invés de expiar os demônios e me auto-punir pela burrice da perda. Preferi continuar… caminhar e cantar.

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Fingi que nada tivesse acontecido. O prazer da arte é imensamente maior do que a perda de cinquenta contos. Tudo resumido em apenas 6 fotos, ou seja, oito e pouco por foto. Ai que enjoo me dá o açucar do desejo.

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Bem,

Chorei, não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim, não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Um homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher
Lhe Venha dar a mão
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira
dá a volta por cima

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Loucos por ferramentas

525295_10150654715798061_928742791_nSinceramente, não consigo entender a tendência de se relacionar com o mundo virtual pelo uso qualificado das ferramentas. Tem sido assim desde que a web é a web. Desde que, para se apropriar do espirito do tempo, precisamos estabelecer o acesso através do uso insano de ferramentas.

Não é bem assim. A sede pelos aplicativos, fantásticos atalhos que temos a disposição para romper a barreira cibernética, não é uma necessidade. É apenas modismo. Ou melhor, é apenas uma grande enganação do mercado produtor. Faz com que os pequenos mortais acreditem que é importante ficar atualizado com as últimas tendências que costumam desaparecer da noite para o dia. Não se enganem, os aplicativos não são precisos.

No instagram, ou mais especificamente na onda de que cada pessoa carrega consigo uma câmera, percebemos a sede louca pelos aplicativos. Não vejo muitas diferenças entre eles. Além da apropriação, da vontade de aprender e de  que trazem alguns recursos juntos e assim, podemos economizar um pouco de tempo de pós-produção. Mas, na verdade, podemos emular quaisquer filtros com o conhecimento das possibilidades. Uma visão macro que favorece aquele que sabe o que está fazendo e não deixa que o software seja o mestre.

Este é mais um processo que costumo chamar de gambiarra, ou seja, a solução de problemas com as ferramentas que se tem à mão.  Aliás, dá-me uma chave de fenda é meia-dúzia de idéias velhas e transformarei o mundo. Não preciso nada mais do que isso.

É desolador, mas…

Pensar na Internet e nos seus meandros é quase a tradução literal da revolução digital. Tudo tem se transformado numa velocidade incrível. O digital consome e recria as relações entre pessoas e também entre pessoas e objetos.

Objetos é a palavra que encontrei para tudo que não é humano. Uma vertente da palavra substância, tão importante na filosofia de Espinosa. Objetos pode fazer referência às músicas. O MP3 modificou a relação das pessoas com a música. A música vai bem, obrigado. O mercado, no entanto, anda a tombos e tropeços. Podemos ampliar essa lista. Falar da imprensa. Que outrora foi uma indústria toda poderosa e agora tem que lidar com formatos que só tentam atrair o consumidor para suas palavras. Muito embora, creio que a tendẽncia é a distribuição total, a descentralização em grupos de interesse. Não se lê mais jornal. Acessamos a informação via redes sociais. Logo, lemos algo dali, algo de acolá e a informação que os amigos e amigos de amigos replicam em suas timelines. O portal como hub tende a desaparecer. A rede social refaz a política das multidões.

E assim, tudo se tranforma. Os argumentos deste novo sistema começaram a ser moldados no fim do século passado. O aparecimento do linux e a cultura hacker foram os rompedores dessa nova ordem mundial. A generosidade e a reputação, à época, tinha a força da remuneração. Era o fim do capitalismo como conhecemos.

Esta ideia de generosidade e reputação continha a potẽncia da evolução humana. Acho que é tudo que precisamos pra viver de fato. A generosidade, que é a virtude de sacrificar os próprios interesses em benefício dos outros e a reputação, que tem um significado além da fama, ou seja é um conceito obtido por uma pessoa pela  capacidade e qualidade de se fazer algo e que é reconhecido pelo público e sociedade. Ingenuamente, poderia ser a percepção pelos outros da generosidade expandida à rede.

A velocidade da revolução não dá tempo desta reputação se formar. A vida cibernética é muito rápida e impermanente. Quando pensamos que a reputação nos atingiu ela nos escapa como o diabo da cruz. Sempre tem ‘alguéns’ pronto pra desbancar a reputação do outro. Essa é a descentralização e distribuição das redes. E precisamos conviver com isso. Todos os mercados serão destruídos, reformulados e destruídos outra vez. Os nossos também. Faster than the speeding bullet. People living like superman. All day and all night. And i won´t say if it´s wrong or if it´s right
I´m pretty fast myself. But i do have some advice to pass along. Better not look back
Or you might just wind up crying. You can keep it moving. If you don´t look down. (BB.King)

Laboratório de Sobrevivência

sobreviveO lab de sobrevivência é um experimento que tem sido desenvolvido nos últimos 15 anos.

A ideia remete ao princípio do MetaReciclagem, ou melhor, as oficinas propostas pelo Glauco Paiva (o cara que começou a ditar o tom das oficinas de arte e tecnologia).

A partir da MetaReciclagem começamos a pensar qual seria a pegada para trocar práticas e conhecimento. Passamos pela constituição das gambiarras como processo de subjetivação. Uma técnica sem prisões. Liberdade para criar com as ferramentas que temos à mão. A experiência das oficinas no Parque da Juventude, o MetaProjeto e a Rede de Projetos (ambos projetos do Acessa SP) ampliaram a visão de que a apropriação da tecnologia se dá na ação. Fazer é tão importante como conhecer.

O lab de sobrevivência tem o objetivo de retomar algumas práticas que as pessoas esqueceram, ou deixaram que a sociedade de consumo substituir, ou melhor, a sobrevivência está na moeda de troca. Pagou, levou 😉

a. lab de sobrevivência – contextualização

  1. vivemos em tempos de Mad Max
  2. os recursos antes abundantes estão se tornando cada vez mais escassos
  3. o lixo é um recurso rico
  4. gambiarras como processo, criar com as ferramentas que se tem à mão.
  5. conhecimentos de tecnologias simples que são importantes quando o foco é a sobrevivência

b. objetivos

Essa oficina propõe uma análise sobre a apropriação das tecnologias da informação e comunicação com objetivo de construir uma interface para a sobrevivência em tempos de Mad Max; Experimentação, a criação artística e o design em uma sociedade organizada em rede.

c. Justificativa

Processos gambiológicos são entendidos como ato de fazer. Gambiarra que remixa, modifica, transforma e se mistura.

O improviso, a precariedade ou o ato de fazer passa a ser realidade. Conectado à rede e com um pouco de conhecimento e vontade de pesquisar temos a possibilidade de construir ferramentas de experimentação e sobrevivência.

A cultura digital possibilita o acesso aos meios de produção. Facilita as atividades das pessoas comuns que passaram a usar o computador em substituição às ferramentas e meios de produção que outrora eram inacessíveis. Tanto na produção como na pesquisa de novas formas de fazer.

Essas facilidades se ampliam quando passam a ser distribuídas em redes, fazendo com que as pessoas conectadas por um computador possam trocar arquivos, projetos e ideias com qualquer outra pessoa ou grupos em qualquer lugar do planeta. Esse conjunto de ferramentas cria impacto na forma que a sociedade produz. E por consequência na própria sobrevivência.

d. metodologia

  1. apropriações gambiológicas para transformação social – palestra, debate, pesquisas coletivas

  2. Lixo eletrônico como repositório de material  – bate papo, palestra, vídeos, , pesquisas coletivas, fotos e debate

  3. arte da sobrevivência

e. key thoughts

apropriações gambiológicas
tecnologia é mato
para que serve a web?
falar é fácil e o silêncio é fatal
emergência
bottom up
redes livres, TAZ,
linkania
gambiarra
faça você mesmo
Gambiarra no cotidiano
habilidade do saber-fazer
precariedade, à ausência de recursos e à instabilidade
sobrevivência (manter), transformação (mudar), aprender (fuçar)
auto-organização

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A volta dos políticos pornográficos

alckimin_resultEm 2013 eu comecei a pensar nos políticos pornográficos após ver um trabalho de Jonathan Yeo que retratou o Bush numa colagem de revistas pornográficas. Essa referência me ajudou a desenvolver a pesquisa com os metapixels.

No primeiro momento, eu já havia selecionado uma base de imagens. Fiz download de milhares de imagens no google usando as palavras-chave: sexo, porno e outras mais que representam conceitualmente a pornografia.

Estas imagens foram preparadas, cortadas e escaladas para 50px X 50px. A base de imagens foi chamada de ‘porno_prepared’.

 Btw, todo o ambiente digital que utilizo para desenvolver as imagens são softwares livres, como: linux, gimp, inkscape, e principalmente o metapixel, um software em modo texto, onde com alguns paramêtros e configurações, cria um fotomosaico a partir de uma imagem matriz, no caso a imagem principal do político. A execução do metapixel faz a metapixelização com a base dados escolhida, a porno_prepared. Assim, começou os políticos pornográficos.

A volta dos políticos pornográficos é um retorno de um foco na política da multidão, as zonas autonomas temporárias ou TAZ para os íntimos da filosofia de Hakim Bey.  Um terrorismo poético que explica a emergência de movimentos como passe livre que se estabelece como uma ação política impermanente. A participação é da multidão.

É também uma reflexão sobre a abundância da informação e as possibilidades que temos para se apropriar dessas informações para produzir subjetividade. No entanto, temos alguns debates ainda em aberto sobre a cultura do remix. Os limites estão indefenidos para todos os lados. O desvelamento de uma base de dados de ponografia, além da crítica óbvia, é o chamamento para um debate sobre copyright, copyleft, privacidade e as redes sociais que se constituem.

Mas, na boca pequena é apenas uma desilusão profunda num sistema político que não representa nada. É tudo uma grande farsa que, com certeza, não vai nos levar muito longe. A humanidade não deu certo.

Os políticos pornográficos é sobre essa suruba. É um grito: tá foda!

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Vai nos levar além

boca_texturizada_v3A liberdade é uma construção. Não é algo que está pronto. Nada tá ganho. É uma conquista cotidiana na qual temos que aprender a lidar com as adversidades e transformar os momentos ruins em potência.

Liberdade não existe sem a prisão. De onde vem esta estranha prática e o curioso projeto de encarcerar para adestrar? Encarceramos as emoções mais loucas para deixar a razão tomar conta do coração. Criamos a nossa própria prisão sem notar que as flores do vizinho são apenas flores. As cores são códigos na cabeça de cada um. A florada só acontece quando é decodificada.

A prisão da existência pode ser traduzida como uma armadilha interna. Uma incapacidade de transformar os anseios em realidade. Tocamos na periferia das emoções, aprendemos a dar um perdido na tristeza. Fingimos que somos felizes, viajamos para desmontar a angústia e nos enganamos quase que o tempo todo. Pois, a construção de um plano de imanência onde podemos exercer a potência é um jogo de tentativas e erros que tratamos como a impermanência do destino.

Isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além (Leminski).